segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Coisas de homem

Faz cara de cúmplice e quase revela os meus segredos na mesa, ainda que em silêncio. A sala de jantar está cheia de visitas - não como de costume, hoje é um momento atípico no meu apartamento. Estávamos de repente sentados um ao lado do outro, ele então sorri leve e me deixa insegura. Segura meu braço guiando meus passos até o corredor no fim da sala, não passa ninguém, não podem nos ver ou nos ouvir aqui, ele conhece bem o caminho:

_O que quer?
_Incomodada comigo? Posso ir embora se quiser, afinal, a casa é sua.
_Só não o esperava para o jantar, hoje...
_Depois de ontem?
_É, depois de ontem. Homens costumam demorar com essas coisas então seria compreensivo um sumiço temporário com uma aparição inesperada daqui a algum tempo.
_Não entendo vocês mulheres. Faço jus as regras "isso é bem coisa de homem" em um tom agressivo, fujo às regras "isso não é coisa de homem", em um tom mais agressivo ainda. As duas opções parecem ruins.

Enquanto passa as mãos nos cabelos escuros, olha pela janela no fim do mesmo corredor, do lado a porta do meu quarto.

_Não achei ruim, achei ruim porque foi hoje. Eu poderia ter fechado a porta na sua cara sem explicações, seria mal educada e você não me entenderia, mas daí a ficar pro jantar? Deixei que entrasse, pensei que fosse mais esperto, não conseguiu entender o que se passa naquela sala?
_Família?
_Família que eu não vejo a um bom tempo e que vai fazer perguntas sobre você, sobre nós, sobre o que eu nem sei o que é ou o que pode ser.

Seu sorriso desavisado aterriza e eu me sinto calma. Ainda escondidos do mundo naquele corredor ele me pega pelo braço de novo, chega perto até sentir seu hálito, sua respiração agora ainda mais calma e ele se faz. É cena, não beija, chega bem perto, mas não beija.

_Não estou pronto para perguntas agora. Isso é "coisa de homem", não é? rsrsrs

Dá pra sentir sua ironia ao mesmo tempo em que respiro sua beleza.

_Aposto que sim.

Voltamos a sala, sento no meu lugar de novo, me concentro no jantar e ouço a porta bater.

_Filha, o moço bonito foi embora. Vocês brigaram? Esses namoros de hoje em dia não resistem nem a um jantar de família mais.
_Mãe, ele não é meu namorado. 

"Não ainda", penso eu.

_Não? Pensei que fosse, pelo jeito como ele olhava pra você.
_Não. 
_Então porque ele olhava pra você daquele jeito? Ele gosta de você, então.
_Não. É só coisa de homem, mãe. Somos amigos.
_Coisa de homem. É... Eles sempre querem conquistar, não escapa nem as amigas.
_É, coisa de homem.

O comportamento humano é tendencioso. Às vezes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Você pode entrar na conversa...